Fazíamos parte do mesmo grupo de dança. Nunca fomos próximos e nossas falas não passavam de: - Oi, Bom dia!, Boa tarde! ou Boa noite!, e alguns sorrisos em pequenos entreolhares.
Como sempre fui de observar a aparência das pessoas, era fácil de associá-las a algum artista que eu gostava, ou que até mesmo conhecia vagamente. Ela tinha o rosto muito parecido com o da dançarina de um filme americano que eu assisti, olhos vivos e gestos espertos. Era fácil eu lembrar e me sentia bem. Até cheguei a falar para ela em uma conversa informal, e ela sem saber de quem se tratava, fazia uma expressão de dúvida.
Havia algo nela que me chamava à atenção, principalmente em seus olhos. Eles me diziam que ela desejava me falar algo, mas, ela se continha todas as vezes que nos encontrávamos, talvez por receio de alguma coisa, ou por não ter um assunto interessante. Quanto a mim? Nunca exigi assuntos interessantes, mas também não sabia se ela os tinha. Meu íntimo dizia que eu não deveria saber, e eu o obedecia, sem culpa. Dois bloqueios vivos, duas pessoas que o tempo reservou e deixou guardado em gavetas separadas, mesmo estando perto um do outro.
Há alguns dias, eu havia recebido uma proposta de outro grupo de dança, ainda mais famoso. Seriam novos horizontes, novas experiências. Passados alguns dias após receber o convite, decidi aceitá-lo e para isso teria que sair daquele grupo. Era um sábado quando me despedi de todos, porém, a primeira pessoa que se compadeceu da minha saída foi ela. Sem ter tido conhecimento da notícia antes, sentou-se à mesma mesa que eu e me perguntou por que eu não repetia naquele dia o ritual de me organizar antes dos treinos, e respondendo logo em seguida, eu disse que outra proposta me aguardava, e que seria meu último dia naquele grupo de dança.
Aqueles olhos vivos me encaravam a cada frase que eu terminava, permanecendo uns quatro segundos. Embora não tivéssemos ligação forte, ela lamentou. Um lamento convidativo, talvez querendo que eu ficasse. Aquilo mexeu comigo, mas parecia que tudo o que pensávamos um sobre o outro veio à tona naquele instante. Minha vontade era de abraçá-la e de dizer-lhe que eu queria conhecê-la por inteiro, mas um terrível bloqueio se fazia presente, sentado conosco. Comecei a me perguntar o que fazer, estava mais aflito e ansioso. Peguei a sua mão e a puxei para fora dali, ela ficou pasma e me olhava como se estivesse cometendo algum crime, mas no fundo se deixava levar pelo gesto. E saimos daquele local.
O salão de ensaios o qual fazíamos parte ficava ao lado do centro da cidade. Caminhamos rápido e paramos ao lado de uma pequena tenda, onde um homem de meia-idade vendia uns cd’s que estavam espalhados numa espécie de mesa improvisada. Em seu aparelho de som tocava a música “La isla bonita”, de Madonna. E sem que houvesse tempo de olharmos um para o outro, peguei seus braços e comecei a dar inicio a uns passos de dança que eu vinha treinando nos últimos dias, ela os acompanhou muito bem. Logo, nos encontramos totalmente envolvidos na música, ao sol ardente do meio dia daquele sábado, olhávamos um para o outro enquanto os passos eram executados. Quando a música acabou, beijamo-nos espontaneamente. Ao final, sorri como se tivesse ganhado um presente de despedida.
Diante do calor do sol, sua frase me fez refletir naquele instante. Meu íntimo estava sedento por alguma atitude. Peguei na sua mão, chamei-a de volta ao salão de dança, pedi para me esperar um pouco enquanto pegava o celular. Fiz uma ligação na sua frente. Ela me encarava perguntando a si mesma o que eu fazia. E falou: - Pelo menos você se lembrará de mim quando não estiver mais aqui. E quando alguém atendeu a ligação, eu falei: - Boa tarde. Sobre aquela proposta para participar do grupo de dança, pode cancelar, permanecerei no grupo que participo atualmente.


